Algo Assim de Lua (Celso Viáfora)

Já posso, outra vez, encarar teu brilho

Aquela paixão, hoje, é um rio tranqüilo

Vazante do meu sentimento

afluente do pensamento

açude barrento

que a chuva arrasou

E já não é nem mais barrento

já não é ressentimento

apenas um nervo morto da minha dor

 

Já posso, outra  vez, freqüentar as ruas

beijar outras bocas que não a sua

Já posso encarar teu narciso

e te namorar o sorriso

agora com os olhos, nunca o coração

mentindo que não fiquei cego

apenas pra afagar teu ego

e te desviar das linhas das minhas mãos

 

A realidade mais crua

é que asnossas vidas são duas

e que a tua pele não foi feita pro meu lençol

Consigo enxergar na sua beleza algo assim de lua

que para brilhar precisa que se apague o sol

 

Tentei me anular, juro que não pude

meu “eu”está cheio de juventude

Saí desse fundo de poço

e te esvaziei dos meus bolsos

tirei da gaveta da minha ilusão

 

Mas tornei a pôr teu retrato

em cima da mesa do quarto

apenas pra fotografar nossa separação

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