Para o Carnaval, Fernanda Young

Todo ano é a mesma coisa: você chega, fica aqui três dias e aí vai
embora. Volta um ano depois, todo animadinho, querendo me levar para a
gandaia. Olha, honestamente, cansei.


Seus amigos, bando de mascarados, defendem você. Dizem que sempre foi
assim, festeiro, brincalhão, mas que no fundo é supertradicional, de
raízes cristãs, e só quer tornar as pessoas mais felizes.


Para mim? Carnaval, desengano… Você recorre à sua origem popular e
incentiva essas fantasias nas pessoas, de que você é o máximo, é pura
alegria, mas não passa de entrudo mal-intencionado, um folguedo, que
nunca viu um dia de trabalho na vida.


Acha-se a coisa mais linda do mundo e é cafonice pura. Vive desfilando
pelas ruas, junto com os bêbados, relembrando o passado. Chega a ser
triste.


Carnaval, você tem um chefe gordo e bobalhão que se acha um rei, mas
não manda em nada. Nunca teve um relacionamento duradouro. Basta chegar
perto de você e temos que agüentar aquelas fotos de mulheres nuas, que
são o seu grande orgulho.


Você não tem vergonha, não?


Sei que as pessoas adoram você, Carnaval, mas eu estou cansada dos seus
excessos e dessa sua existência improdutiva. Seja menos repetitivo,
proponha algo novo. Desde que o conheço, você gosta das mesmas músicas.
Gosta de baile. Desculpa, mas estou pulando fora.


Será que essa sua alegria toda não é para esconder alguma profunda
tristeza? Será que você canta para não chorar? Tentei, várias vezes,
abordar essas questões, e você sempre mudou de assunto. Ora, chega
dessa loucura. Reconheça que você se esconde atrás de uma dupla
personalidade.


Cada vez mais e mais pessoas ficam incomodadas com essa sua falsa
euforia, fique sabendo. Conheço várias que fogem, querendo distância
das suas brincadeiras.


Você oprime todo mundo com esse seu deslumbramento excessivo diante das coisas, sabia?


Por exemplo, essa sua mania de camarote. Onde os vips podem suar sem
que isso pareça nojento. Onde se pode falar torto sem que seja errado.
Todos vestidos de uniforme, senão não entram. Todos doidos para passar
a mão na bunda um do outro.


Essa é a sua idéia de curtir a vida?


Menos purpurina, Carnaval. Menos bundas, menos dentes para fora. A vida
é linda, mas a “lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo” é um
saco. Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém. Tudo
muda no mundo – por que você insiste em continuar o mesmo?


A harmonia vem da evolução, não das alegorias. Chegou a hora de rodar a baiana para não atravessar na avenida.


Como será amanhã? Responda quem puder.

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