Dia de viagens, quase tudo perdido

Para entender, estou numa viagem internacional rota muito simples: São Luís – Belém – Suriname e Trinidad e Tobago. Ainda nem sai do aeroporto de Belém e já tenho histórias para contar. Em um daqueles dias que a ansiedade faz levantar da cama antes do despertador. Demorei demais no banho, menos fazendo a higiene e mais tentando me concentrar em um check list mental.  Entre as prioridades sacar um dinheiro no banco para comprar os dólares que utilizaria na viagem. Cadê o cartão do banco? Estresse, revira tudo e nada. Desisto e desço para o café. Mais relaxada e confiante de que com certeza o cartão aparecerá – nada. São 9h30, nem São Longuinho resolveu, é hora de mudar os planos feitos no banho e incluir uma ida à minha agência que fica bem ali, no Campus da UFMA.
Depois encaminhar algumas outras pendências, chego à UFMA 12h03, anotei para o caso de precisar arrumar uma cascaria e cobrar a lei do tempo máximo de 30 minutos em fila. Será que vale para essas filas que, por se esperar eternamente, já nos colocam sentados? Ah, tinha marcado um almoço com uma amiga. Era 13h30, quando ligo para ela, avisando que em breve sairia do banco. No caminho mais coisas: faltavam desodorante Minâncora, lembrancinha de Camila e ainda uma fila nas Americanas, tudo bem, não estava na lista, mas eu não podia perder uma promoção de panetone à R$ 2,50 e um bom shampoo anticaspa à R$ 7,00.
Sigo para última tarefa, uma transação comercial no meio do coreto da praça com o primeiro que aparece. Putz, ainda faltava a carta de aceitação da escola de idiomas, documento exigido para entrar no país. Por que só agora?  Porque em dias como este falta a tinta da impressora, lógico.
Agora sim em casa, com amiga e a família. Todos com fome às 16h. Eles me amam, não posso duvidar.
Cansada, mas faltava a mala. Tira e bota até o meu sobrinho de 12 anos dizer que a mala já devia ter uns 18h kg dos 20 kg permitidos.  Achei melhor parar e considerar uma margem de erro de 2kg.  Claro que saí com a impressão de que estava atrasada e não passei a direção do carro para Daniel, que foi em minha casa me buscar. Tudo ótimo. Despedida no aeroporto. Primeira parte voo São Luís – Belém maravilhoso, com direito a aeromoças educadas, sorridentes e dispostas – voo assim só dura uma hora.
Em Belém, primeira providência foi procurar a companhia aérea do voo internacional. Checar horário, documentação, essas coisas. Momentinhos de tensão, a sala da empresa estava fechada, mas segundo supervisores da Infraero, abriria em pouco tempo, afinal era 22h30 e o embarque seria somente às 4h15. Então, tá tranquilo, não tá? Sim, até eu levar a mão ao bolso traseiro da minha calça e descobrir que minha carteira de identidade sumiu. Sem estresse, posso ter guardado na mochila e não me recordar. Êpa, o aeroporto de Belém que de início gostei, de repente se tornou desconfortável, não existem cadeiras livres, apenas calçadas e degraus, que são improvisados por quem não deseja passar a madrugada inteira consumindo nos quiosques.  Ali mesmo, nos degrauzinhos, começo a despir minha bagagem de mão, nem sombra da carteira. Plano B, refazer o caminho do desembarque à sala da Infraero, perguntar para as pessoas que fazem a limpeza, balcão de informação, supervisão da Infraero. Nada. Resolvo sentar num dos quiosques e escrever este texto, precisa desabafar, buscar solidariedade.
Estava difícil, mas eu tentava me dizer que tudo ficaria bem, afinal em voo internacional o que se utiliza é o passaporte. Minha consciência dizia Ivana relaxa, assiste a um filme de Digão, bebe uma água. Digo para ela, não dá, a sala da empresa aérea tá fechada, minha carteira de identidade perdida e aquela pergunta que não se deve fazer, não se quer fazer, mas ela vem de intrometida, atraindo aquelas energias – o que mais falta acontecer?
(Neste momento interrompi este texto e fui para a fila do check in da Surinam Airways)
Era uma fila enorme e um pouco desorganizada. Gente de todo tipo, sotaques, muitos maranhenses, curiosamente. Estava gostando. A tensão com o peso das malas não era só minha, todo mundo parecia preocupado com a limitação de 20kg. Mas, a minha aumentou muito pelos comentários de pessoas que tiveram a bagagem violada. Uma senhora costurou toda a mala. Outros pediram lacres, o que logicamente fiz também.  Depois começo a conversar com um cara que ao voltar do Suriname para o Brasil recebeu a bagagem 12 dias depois. Entrou na justiça contra Surinam Airways. Este mesmo cara fez um escândalo fenomenal na lenta fila do check in, quando sua mulher grávida estava esperando enquanto os jovens e fortes jogadores dos times do Remo e Paissandu estavam passando direto. Ele ficou possesso, mas conseguiu a prioridade, quase foi aplaudido!  Foi o estopim para um desabafo – “Não gosto do Brasil, venho aqui porque tenho uma filha menor de idade. Se você tem um sapato, você vale este sapato. Quanto mais dinheiro você tem mais terá respeito, direito e justiça”, mulher negra, maranhense de Lago da Pedra, já radicada no Suriname.
Minha vez, surpresa: no balcão do check in tenho de pagar R$ 62,00 de “taxa de embarque”, nenhuma outra explicação. Resta-me contestar com a agência. Pelo menos não extrapolei o limite de peso.
Sala de embarque, voo atrasado.  Não há o que fazer, vou assistir a Vidas Cruzadas.
Avião chegou, alvoroço.  No voo tranquilo conheci a pizza surinamesa e preferi água à cerveja local. Me arrependi. Quando de novo vou ter esta oportunidade? Besta, me xingo, assim que recebo a água, igual em todo lugar.
No aeroporto de Paramaribo, capital do Suriname, o agente de imigração ao ver meus bilhetes já me avisa, em bom português. Você perdeu sua conexão para Trinidad e Tobago. Imediatamente, percebi que esta era a resposta para aquela tal pergunta -O que faltava acontecer? Dirijo-me à sala da Surinam Airways e graças a Deus encontro na mesma situação um brasileiro com um inglês fluente e um holandês, que fala alemão também, língua oficial do Suriname – também só fiquei sabendo agora.
Depois de algum quebra pau, linguagem universal, o brasileiro foi para outro aeroporto tentar novo voo para seu destino e eu o holandês, que íamos para Trinidad e Tobago, fomos rapidamente embarcados num voo para Curaçao, onde poderíamos pegar um voo para TT.
Temos de convir que a Surinam Airways em Curaçao é uma outra companhia, eficiente Miguel Gomes arrasou no atendimento. Desta forma ganhamos um dia em Curaçao, ficamos nos arredores do aeroporto, eu e o holandês. Até teria arriscado um tour, mas quando se está com um homem, ele sempre nos diz que o melhor para nos proteger é ficar onde estamos.
Foi bom também, descobri que estava ao lado de um capitão, navegador, que já fez três viagens ao redor do mundo. Falou-me de piratas no mar da Somália, Venezuela, Amazônia e outros lugares. Estava indo para Chaguaramas  a serviço de uma empresa preparar uma embarcação para uma viagem de três meses. Porém, o que mais guardei foi seu olhar dentro do meu dizendo que viagens de mais de seis meses com as mesmas pessoas são perigosas. O que será que quis dizer…
O dia passou rápido com muitos cochilos, uma olhada no mar de Curaçao, sol e sua gente espetacular. Queria fotografar as unhas e os cabelos das mulheres do Caribe. Talvez o faça, quando souber falar isso em inglês.
À noite, seguimos no voo que ia para Paramaribo (Suriname) com escala em Port of Spain (Trinidad e Tobago).  Depois de perder quase tudo, no avião nova oportunidade de beber a Parbo Bier. Não é sempre que se tem outra chance, e desta vez não desperdicei. Salud!

Mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Trinidad_e_Tobago
http://brazil.angelsacademy.com

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14 thoughts on “Dia de viagens, quase tudo perdido

  1. Ei, Ivana! Só agora descobri seu blog. Li alguns relatos e gostei bastante, sao bem interessantes. Que sufoco na partida para Trindad e Tobago, hein? Mas acredito q depois vc foi recompensada, rsrs. Sempre que der vou passar para ler suas histórias.
    Eu também estou com um blog, no qual conto algumas coisas vividas na minha atual estada na Alemanha. Assim como vc em TT, também vim p estudar uma língua estrangeira. Visita meu blog htt://janucaqui.blogspot.com
    Grande beijo!!

  2. Quantas aventuras, hein!? Mas sei que tem muitas outras emoções impublicáveis… rsrsr tudo bem, fica pra volta, num encontro mais off. Treina bastante esse inglês pra tu me ensinar depois! E não perde a oportunidade de beber as cervejas! Aliás, se der pra trazer… Calma, calma eu não vou beber!
    bjus e divirta-se (mesmo estudando!)

    • Um brinde às coisas impublicáveis,rs… Quanto às cervejas tá difícil, vou adiantar informacoes de um post sobre o assuunto. Aqui só vendem pequenas garrafas de 275ml, e eu reclamava de nossas latinhas de 300m, esses 15ml fazem falta no último gole. O preço da cerveja mais barata é 8(TTD) dolares de Trinidad & Tobago, mas em geral é 10.00, exatos R$ 2,62. Então, para consumir 550ml (50ml a menos da nossa tradicional) pago o equivalente a R$ 5,24. Ou seja, eu não tenho dinheiro pra me embriagar em TT. Beijos e parabéns pela maternidade.

  3. que coisa, mas achou a identidade? onde estava? bom, na próxima viagem, faz tudo isso na véspera, viu. te organiza que tu consegue. ademais, aproveite mais essa viagem internacional. arrase por trinidad … em todos os sentidos … ehehe … bjs

  4. Iva,
    Que bom que a viagem já teve grandes emoções. Fico feliz pela aventura. Fico mais feliz ainda sabendo que chegaste bem!
    Ao ler teu relato tive a impressão de estar vivendo cada uma daquelas situações, parecia-me ser os teus olhos ao olhar o “mar de Curaçao, sol e sua gente espetacular”. Enfim, uma emoção danada em cada detalhe.
    E a identidade conseguiste encontrar? pegou o telefone do holandês? e a Parbo Bier é tão gostosa quanto a brahma?
    Preta, estou na torcida pra que dê tudo certo!
    Um beijo enorme. Fica com Deus e não esquece de me dá notícias.
    Te amoooo!

    • Que amorosa, mensagem. Ainda viajaremos mais juntas, das nossas também tem histórias pra contar… Tá tudo bem sim. Torcer me ajuda muito, hoje tenho teste de colocação, acordei cedo e fui estudar. beijos.

  5. Eita, amiga, que maravilha seus relatos! Deu até para sentir o gosto da cerpa [Aliás, provou a Cerpa de Belém]?
    Hen, hen, mas não é só você que viaja [bem que no meu caso foi a trabalho]. Veja o meu último trajeto em novembro-dezembro de 2010: Fortaleza- Rio de Janeiro-Panamá-Nicarágua-El Salvador-Bogotá-São Paulo-Brasília-Fortaleza.

    Bjs e te cuida.

    Renato

    • Olha, minha viagem perto da Renato é fichinha, ainda mais conhecendo sua organização. Quantoa Cerpa de Belém, foi uma surpresa, eu sempre brinco nos bares pedindo uma Cerpa, e ao chegar no aerporto vi uma placa enorme de uma Cerpa geladíssima. Provei não, mas tem a volta. Quero viajar por essas cidade também. bjos

  6. É isso aí, amiga! Quer mais emoção? Vai contando tudo aqui, pra gente poder te lembrar dos detalhes, quando você repetir tudo pra todo mundo quando voltar. Traz fotos, fotos, fotos!

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