Medo da justiça e dos justiceiros

Pintura Justicia, de Débora Arango

Pintura Justicia, de Débora Arango

“Um homem foi morto a pauladas pelos vizinhos, na Vila Maranhão, porque foi surpreendido roubando uma galinha”, informa o jornal Vias de Fato, em sua página no Facebook, no dia 17 de julho de 2014. Me chocam as notícias e as vivências dessa onda de “justiça” com as próprias mãos no Brasil. Realmente não sei se há uma crise de valores que está falindo com a noção de direitos, ou seria a falha da garantia de direitos que está gerando essa crise de valores. Fato é que está cada vez mais difícil saber quem é mocinho e quem é bandido.

Tem sido recorrentes os casos de linchamento de suspeitos de crimes e bandidos por “cidadãos de bem”. Eles ganham força mesmo após moradores de uma comunidade do Guarajá, em São Paulo, agredirem até a morte uma dona de casa que foi erroneamente identificada como a pessoa que realizava rituais de magia com crianças. Exemplo disso, recentemente, no centro comercial de São Luís, há poucos metros de onde eu estava, houve uma tentativa frustrada de assalto à uma loja, e o assaltante escapou após dar um tiro para o alto. No alvoroço, um homem muito exaltado chamou minha atenção. Ele questionava porque seguranças não atiraram no homem. Como o assaltante estava armado, ele também se dizia revoltado por não poder ir à caça.

Do assaltante não vi nem o rastro. Mas, fique intrigada com este vendedor ambulante, que suponho, costuma acordar cedo e encarar sol e chuva para garantir seu sustento, disposto a abandonar sua mercadoria e ir fazer o que achava certo: dar uma lição ao meliante. À primeira vista parece justo. Deve ser por isso que atos como esse são calorosamente defendidos nas mídias sociais, e qualquer menção aos Direitos Humanos é desqualificada. O comentário mais comum parece um bordão nacional de tantas vezes que li: “Tá com pena? Leva pra casa.”

Mas onde está a polícia ou Justiça, cuja a incompetência é motivo para os que fazem justiça com as próprias mãos? Uma parte dela está também seguindo a máxima do bandido bom é bandido morto. Muitos de nós vimos ontem pela TV policiais do Rio de Janeiro perseguirem, prenderem e executarem adolescentes no Morro do Sumaré. Outros, aqui mesmo em São Luís, vivenciamos o desrespeito à vida e a humilhação por parte da polícia no nosso cotidiano.

Pessoalmente, a minha sensação de insegurança só aumenta. Sinto nossos valores pessoais e o sistema de garantia de direitos frágeis, e a barbárie à um triz. Diante disso, me pergunto: o que diferencia bandidos, polícia e justiceiros? Quem após matar, dorme o sono dos justos?

Editado dia 23/07/2014

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